Janeiro 28, 2008

As criancinhas de hoje…

Posted in Uncategorized tagged , , , , às 14:15:26 por João Pedro Pereira

A criancinha quer Playstation. A gente dá.
A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.
A criancinha berra porque não quer comer a sopa. A gente elimina-a da ementa
e acaba tudo em festim de chocolate.
A criancinha quer bife e batatas fritas. Hambúrgueres muitos. Pizzas, umas
tantas. Coca-Colas, às litradas. A gente olha para o lado e ela incha.
A criancinha quer camisola Adidas e ténis Nike. A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso ser
diferente.
A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente senta-a ao
nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.
A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz de conta e o
berreiro continua.
Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou mulher.
Desperta.
É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada,
semanada, diária. E gasta metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares.
A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por isso. Mas
não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.
A criancinha cresce a ver “Morangos com Açúcar”, cheia de pinta e tal, e
torna-se mais exigente com os papás. Agora, já não lhe basta que eles
estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à frente na mota, no popó
e numas férias à maneira.
A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o
processo de independência meramente informal. A rebeldia é de trazer por casa.
Responde torto aos papás, põe a avó em sentido, suja e não lava, come e
não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são «uma seca».
Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr
nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e
umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada. Sente-se
vítima de violência verbal e etc e tal. Em casa, faz queixinhas, lamenta-se,
chora.
Os papás, arrepiados com a violência sobre as criancinhas de que a televisão
fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do
ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas
bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em
paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».
A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos, ainda será criancinha,
continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário
deles. Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao menos não anda para aí
a fazer porcarias».
Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas
em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha? Pois não, bem sei.
Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir
parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos .

Isto são os Paizinhos que se dizem Modernos.

É por isso que hoje em dia não há respeito por ninguém, em lado nenhum.

Vai ser este o Futuro da nova geração.

in Visão

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5 comentários »

  1. Élio aka Tony montana :P said,

    Concordo perfeitamente com isto, vai ser um futuro negro o da nova geração.

  2. Luís Pereira said,

    Já tinha lido isto em algum lado….

    é verdade o que dizes em cima… no geral, é claro. Há familias em que isto não acontece.

    Mas na maioria já é assim.

    Mais tarde vão querer ter trabalho mas como custa muito procurar, não arranjam nada. Querem dinheiro mas não trabalham e ao fim do mês em vez de receberem pedem dinheiro aos pais que sempre lhes vão dar o que eles querem.

    Ainda bem que os meus pais não são “modernos” porque não queria viver num ambiente que contribuisse para a minha degradação mental… custa a ler isto, especialmente aos pais que são “modernos”, mas é a verdade…

    Parabéns pela grande qualidade de artigos 😉

    Abraços.

  3. Ana said,

    As crianças são o reflexo da educação que recebem e essa não é igual em parte alguma.Porém,infelizmente, este artigo representa a regra da criança portuguesa, mas não há regras sem excepções e essas é que vale a pena salientar 🙂

  4. Qel said,

    Desde já há que referir que este artigo transparece – e de que maneira! – a infeliz realidade da educação nos dias de hoje. São paizinhos como esses que se acham os melhores pais do mundo só por fazer as vontadinhas todas aos “seus meninos” que muitos dos jovens da actualidade são como são (mal-educados) e que se acham aquilo que não são (pessoas com alta moral e “senhores do mundo”). A culpa não está somente neles mas também em quem instigou e ajudou a moldar uma personalidade assim… tão sem futuro. E a culpa é, está claro, desses “papás todos modernaços”. E a educação (e tudo o mais) está como está. Enfim.
    Um excelente artigo, este! ;D

  5. electron++ said,

    vais ser o pai dos meus filhos 😛


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